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susana me matou - a novela - capítulo 27

Às veses Susana me lembra muito a minha mãe. Antes de eu sair pra trabalhar ela ajeita minha camisa com a mão, tirando alguns dos muitos amassados. Quando estou triste ela coloca a mão na minha testa pra ver se estou com febre. E quando meu cabelo passa dos limites aceitáveis para um homo sapiens, ela manda eu sentar no vaso sanitário e, com uma tesoura não muito afiada na mão, apara os fios ordinários que bravamente ainda resistem no meu couro cabeludo. Mas Susana fica ainda mais parecida com a minha mãe quando estou manhoso e ela me dá o peito.

susana me matou - a novela - capítulo 26

Sempre que me liga com sua voz rouca parecendo eternamente gripada, Susana me pergunta: sabe quem tá falando? Respondo: não, Susana, eu não sei quem está falando. Como se não bastasse o bina do celular, conheço as coordenadas exatas dos calos nas cordas vocais de Susana. Então ela cria personagens num intrincado jogo de advinho: inventa lugares, sotaques, situações e sensações. Descreve como eu estava vestido, o que eu bebia, como estava a minha barba. Ela vai falando sobre esse cara que me é estranho e fico com ciúme, imaginando de quem diabos ela está falando.

susana me matou - a novela - capítulo 25

Acordo com o barulho de asas batendo. Tateio a cama procurando por Susana, mas só encontro a minha camiseta que ela gosta de dormir. Meu coração acelera e bate no compasso do som que ecoa pelo quarto escuro. Acendo o abajur, coloco meus óculos e vejo Susana voando rente ao teto, perdida e sem rumo. Chamo seu nome uma, duas, três vezes. Susana deve estar sonhando que é um inseto voador, um pássaro ou um anjo. Dizem que temos que ter cuidados especiais com os sonâmbulos. Por isso, ajeito o travesseiro dela, tiro meus óculos e apago a luz. Antes de voltar a dormir, penso que amanhã bem de manhã tenho que comprar uma rede de caçar borboletas.

susana me matou - a novela - capítulo 24

Entre as oito tatuagens que Susana carrega sobre o corpo, uma delas traz uma mensagem bíblica que diz: “Tudo posso Naquele que me fortalece”. Essa frase, marcada pra sempre na pele de Susana em seu quadril esquerdo, segue o contorno branco do biquini em sua bacia. É incrível como Susana consegue manter algo tão sagrado perto de algo tão profano. Entre frases de caminhões e a Bíblia que minha mãe me deu quando era criança, tudo posso entre os quadris de Susana.

susana me matou - a novela - capítulo 23

Susana e eu discutimos muito nos últimos tempos. Seja pela minha mania de alinhar os livros na estante, seja pelas cinzas de cigarro que ela espalha pela casa, sempre acabamos em atrito. São coisas pequenas, mas que vão tomando proporções gigantescas, como um pequeno redemoinho que, com a ajuda de uma borboleta no Pacífico, se transforma em um tornado devastador. E sempre chega a hora de ter uma conversa séria, definitiva, pra tentar consertar as coisas ou pra acaba-las de vez. Assim que boto minhas cartas na mesa, Susana me mostra os seios e deixa a cinza do cigarro cair sobre meu rei de copas. Minha raiva se dissipa com um leve sopro que sai dos lindos lábios de Susana. Ela sempre me ganha com golpes baixos e geniais como esse.

susana me matou - a novela - capítulo 22

Susana tem um corpo renascentista e gosta de gozar como a maioria dos homens. Mas quem pensa que ela faz o gênero mulher fatal logo se engana. Susana não passa de uma mulher normal que faz coisas normais com um cara extremamente normal como eu. Ela não é do tipo que te daria a melhor noite da sua vida. Ela procura as melhores noites todos os dias pra ela. Susana é tão egoísta quanto sou altruísta e é por isso nos damos bem apesar das diferenças gritantes e normais entre nós.

susana me matou - a novela - capítulo 21

Não sei precisar quanto tempo Susana e eu estamos juntos. Na verdade, não sei nem dizer se estamos juntos. Não sei há quanto tempo o cachorro está aqui e continua sem nome. Não tenho nem idéia de quanto tempo tenho pra desarmar a bomba que Susana escondeu embaixo da cama e saiu pra comprar pão. Meu relógio parou. Só sei que o tempo lá fora abriu e hoje amanheceu um sol amarelo. Hoje é um bom dia pra morrer.

susana me matou - a novela - capítulo 20

Levei Susana pra tomar milkshake de chocolate, que ela adora. Mas Susana não termina nada o que começa: cursos, livros, filmes, pratos de comida, pasta de dente e relacionamentos. Ela disse que isso é uma regra e que eu sou uma exceção. Ela sorri sem graça e suga com força o que restou do meu milkshake.

susana me matou - a novela - capítulo 19

Hoje Susana me acordou assustada, com pressa, e disse já é agosto, levanta, vai levar o cachorro pra tomar vacina. Eu disse leva você, você que trouxe ele pra casa. Pude ver a raiva pura e doentia nos olhos dela. Por precaução, o cachorro não foi o único a ter a carne espetada. Depois disso, ficamos andando pela cidade, cheirando rabos e mijando em postes.

susana me matou - a novela - capítulo 18

A chuva que cai lá fora faz as pessoas lotar os shoppings, almoçar com seus entes queridos em domingos em família, faz o cinema parecer o paraíso na terra. A chuva que cai lá fora faz Susana ficar extremamente melancólica, como se fosse um anjo que despencou do céu com a força da enxurrada. Em frente à janela, Susana fuma um cigarro e assopra a fumaça contra o vidro. Susana não me disse se tem família. Raramente almoçamos aos domingos. Nunca vamos ao shopping. Susana sempre me surpreende. Num lapso de sorriso, Susana apaga o cigarro no metal da janela, tira a minha camiseta que ela usa pra dormir e me chama pra tomar banho na chuva fria e cinza que cai lá fora. Mas como sou incrivelmente previsivo, digo não, e continuo no sofá acariciando as orelhas do cachorro. Susana acende outro cigarro e vai pra chuva.

susana me matou - a novela - capítulo 17

Os olhos de Susana são vitrais que mudam de cor. Mesmo atrás dos óculos escuros que ela insiste em usar até dentro de casa, sempre consigo perceber o que eles querem dizer. Olhos de raio-x, olhos de raio laser, olhos de anis, olhos de raios ultravioletas que violentamente mudam de cor. Sei de cor a sequência exata das cores dos olhos de Susana. Eu trocaria toda minha coleção de bolinhas de gude por aqueles olhos.

susana me matou - a novela - capítulo 16

Susana gosta de objetos pontiagudos. Facas, canivetes, agulhas, gillettes, estiletes e lâminas despertam o interesse quase que instantâneo dela. Ela me disse que é assim desde criança. Enquanto a mãe cozinhava, Susana chupava as pontas das facas usadas para cortar verduras e legumes. Hoje Susana só usa facas pra fazer cortes rasos sobre a pele. Às vezes ela exagera na profundidade e sangra um líquido escuro, quase negro. O sangue é quente e grosso e se espalha pelo chão da casa, invade os cômodos e engole os móveis. Tenho que correr pra salvar o cachorro que ainda não tem nome e depois fechar as feridas abertas como quem fecha as janelas durante uma tempestade. Nessas horas Susana me acorda e diz que está tudo bem. Estou encharcado de suor e o cão ainda dorme tranqüilamente aos nossos pés.

susana me matou - a novela - capítulo 15

Quando Susana voltou pra casa trouxe companhia: um cachorro viralata, desses que dorme durante o dia todo, que espera ansioso o resto de um pastel numa feira livre e que enrosca o pau numa cadela qualquer. Marrom encardido, ele não é lá muito grande nem muito valente. Tem aquela cara de coitado que só os viralatas têm. Deve estar cheio de pulgas, já que ficou se coçando desde que Susana o colocou pra dentro. Ela me mandou pegar uns jornais velhos e forrar o chão ali na lavanderia, perto do tanque. O cão lambeu alegremente as mãos de Susana depois de comer o bife gelado que ela deu a ele. Eu senti ciúme. Lamber Susana é uma das experiências mais saborosas que existem. Quando enfim o cachorro se deitou pra tirar um cochilo, Susana e eu ficamos na cozinha, tomando um café morno e pensando em que nome dar ao novo hóspede.

Veja o próximo!

susana me matou - a novela - capítulo 14

Ontem Susana saiu com um vestido vermelho-sangue e eu passei a tarde mirando o céu azul-eterno.

Veja o próximo!

susana me matou - a novela - capítulo 13

Apesar de não ter emprego fixo, Susana nunca me deixa pagar nada pra ela. Uma calcinha nova, uma tatuagem, um vinho que custe mais do que quatro reais nem uma coxinha no mosca-frita da esquina. Nada. Ela sempre frisa: não gosto de depender de quem quer que seja, não quero que me sustentem, não peço esmolas. As únicas coisas minhas que Susana aceita são os cigarros, a cama e a insônia dos dias mal vividos. E quando tem fome, Susana tira minha roupa.

Veja o próximo!

susana me matou - a novela - capítulo 12

Susana gosta de falar coisas sujas enquanto trepamos. Coisas que saem da boca dela e esfolam os meus tímpanos catequistas. O primeiro gozo vem como um sussuro. O segundo, como uma ordem clara e direta. O terceiro, como um grito úmido. O quarto, como um berro arrependido. É sempre com a mesma sinceridade obscena que Susana diz que me ama e, depois, canta uma canção de ninar pra eu dormir. Nesses dias eu não rezo antes de me deitar.


Veja o próximo!

susana me matou - a novela - capítulo 11

Susana me manda repetir:
não vou te abandonar
não vou te abandonar
não vou te abandonar
não vou te abandonar
não vou te abandonar
não vou te abandonar
não vou te abandonar
não vou te abandonar
não vou te abandonar
não vou te abandonar
não vou te abandonar
não vou te abandonar
não vou te abandonar

Susana é minha dona

Veja o próximo!

susana me matou - a novela - capítulo 10

Susana vive me dizendo que sou infantil. Eu digo: infantil é você, e a gente cai na risada, na cama. Susana gosta de brincar. Ela gosta muito de brincar de poliícia e ladrão. Na maioria das vezes eu sou o bandido. Tento fugir, mas é como naqueles sonhos que a gente sonha que ta correndo mas não sai do lugar. Eu não sei o que isso significa. Eu nunca sei o que os sonhos querem dizer. Quando Susana enfim me prende, ela finge ler os meus direitos apertando as minhas bolas como se fossem algemas: quanto mais eu me mexo, mais dor eu sinto.

Veja o próximo!

susana me matou - a novela - capítulo 9

Mesmo depois de tantas vezes, ainda tenho vergonha de ficar sem roupa na frente de Susana. Ela não. Ela faz tudo nua. Por isso estranho quando ela chega em casa quieta, não me dirige uma palavra e entra com roupa e tudo no chuveiro. Acho que nessas horas ela chora. Eu fico na cama, de cueca, tímido, esperando Susana enxaguar a roupa. Quando ela fecha o registro, sei que não demora muito pra ela abrir as pernas e me apresentar à solidão.

Veja o próximo!

susana me matou - a novela - capítulo 8

Susana diz que não sei fazer nada direito. Que não sei chupar, não sei foder, não sei viver. Mas que um dia ela me ensina a morrer. Ela fala em karma, noutras vezes em impermanência. Não entendo muito bem o que ela quer dizer com todas essas coisas. A única coisa que sei é que fico pior sem ela. Susana é minha penitência.

Veja a sequência!

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